sexta-feira, 19 de julho de 2019

Pescadores de Petrolândia cobram da prefeitura os prejuízos financeiros causados pela interdição do mercado municipal

17-07-2019
Fonte: Assessoria de Comunicação do CPP -  www.cppnacional.org.br



Pescadores e pescadoras artesanais de Petrolândia (PE) iniciaram na tarde de hoje (17/07), uma manifestação em frente à prefeitura da cidade para protestarem contra o fechamento do mercado municipal, interditado no fim da manhã de hoje pela Fiscalização Preventiva Integrada do São Francisco  (FPI), uma ação realizada e coordenada pelos Ministérios Públicos Federal e Estadual.
O péssimo estado das instalações do mercado levaram à interdição realizada pela FPI, por isso pescadores e pescadoras artesanais, em conjunto com os outros comerciantes do mercado, estão cobrando da prefeitura local uma resposta em relação à situação.  Eles reivindicam que a prefeitura arque com o prejuízo da perda de mercadoria que estava sendo vendida no dia de hoje e da produção de pescado já capturada, que segundo estimativa feita pelos pescadores, está entre 700kg a 1000kg de peixe. “Vários pescadores estão preocupados com a produção que estão trazendo do rio. O prejuízo vai ser grande”, relata o agente do CPP de Petrolândia, Pedro Souza.
O agente também explica que a prefeitura é responsável pela precariedade do Mercado Municipal. “A estrutura do mercado não tem investimento há muitos anos. Houve uma reforma há quase 30 anos mais completa e há 5 anos colocaram azulejos que estão estourando. Por isso a prefeitura tem responsabilidade no ocorrido e os pescadores e pescadoras não querem ficar no prejuízo”, explica.
No ato realizado em frente ao prédio da prefeitura, pescadores jogaram os pescados no chão, já que a produção já havia sido perdida. A prefeitura marcou uma reunião com os manifestantes, mas passadas mais de duas horas, a reunião ainda não havia sido realizada. Os pescadores têm a intenção de continuarem mobilizados até obterem uma resposta da prefeitura.

domingo, 16 de junho de 2019

No Sertão pernambucano, população sai em caminhada contra instalação de usina nuclear

Protesto acontece nesse fim de semana e conta com atividades políticas e culturais

segunda-feira, 10 de junho de 2019

ORGANIZAÇÕES SOCIAIS SE COLOCAM CONTRARIAS A INSTALAÇÃO DE USINA NUCLEAR EM ITACURUBA.

Carta em defesa da vida e em repúdio à implantação de novas Usinas nucleares no Brasil, em especial no município de Itacuruba, Pernambuco


Foto Arquivo CPP Floresta: Pescador com Curimatã.

No dia 03/04/2019 o secretário de Planejamento e Desenvolvimento Energético do Ministério de Minas e Energia, Reive Barros, declarou que o município de Itacuruba localizado no sertão de Pernambuco já foi analisado pela Eletronuclear para receber uma nova central nuclear, durante o World Nuclear Spotlight ocorrido no Rio de Janeiro. Detalhou ainda que o local pode abrigar até 06 reatores, com um total de 6.600 megawatts (MW) e investimentos no patamar de R$ 30 bilhões. Assim, o pronunciamento do governo federal durante o evento no Rio de Janeiro tornou oficial a sua intenção de possível construção de uma usina nuclear no estado de Pernambuco, muito embora o temor de sua construção já se arraste por uma década sobre a população da área.

Inicialmente, ressaltamos que, embora o governo federal tenha apontado a existência de estudos sobre a área, estes não foram divulgados e nem a população local, a ser diretamente atingida pela construção da usina, foi consultada e cientificada. Destacamos ainda que na localidade existem 3 povos indígenas e 3 comunidades quilombolas, que pela Convenção 169 da OIT devem ser consultadas previamente sobre a construção de grandes obras no local.

É preciso entender o contexto do local apontado pelos estudos da Eletronuclear como propício, município de Itacuruba, e, sobretudo, quais os possíveis efeitos da construção desse grande empreendimento no local. O município já foi alvo de um grande deslocamento populacional para a construção da Barragem de Itaparica, que inundou sua antiga sede e grande parte das áreas agricultáveis. Com isso, gerou um forte empobrecimento local e demonstrou uma desastrosa política de realocação da população, sobretudo com o grave desrespeito aos povos e comunidades tradicionais existentes. O resultado disso é um município que possui um alto índice de depressão e a absurda taxa de suicídio de 26,6 pessoas a cada 100 mil habitantes, enquanto a média do estado é de 3,6, sete vezes menor, segundo dados do CREMEPE.

Situando o contexto vivido pela população do município, somos contra a implantação de novas usinas nucleares pelos seguintes motivos:

-As centrais nucleares expõem a sociedade ao risco de acidentes de alta radioatividade, que podem trazer consequências catastróficas à vida das pessoas e do meio ambiente, como ocorreu em Fukushima e Chernobyl. E no caso brasileiro do Césio-137 com substâncias nucleares.

-A radiação emitida pode causar impactos imediatos e a longo prazo na saúde humana, como: vômitos, queimaduras; distúrbios gastrointestinais, síndrome cerebral, infertilidade, má- formação genética e câncer.

-Há também o agravante problema do lixo nuclear, cuja deposição final demanda pesados investimentos e estes rejeitos precisam ficar isolados durante milhares de anos.

-Uma usina nuclear pode causar grandes danos ao meio ambiente. Embora argumentem ser uma energia “limpa”, pode gerar quantidades consideráveis de gases de efeito estufa, além do aumento da temperatura das águas do Rio São Francisco, a serem usadas para o resfriamento dos reatores.

-A instalação de usinas nucleares utilizando as águas do Rio São Francisco seria mais um descaso
com o rio, que já sofreu com a Transposição e outras obras de grande impacto sobre suas águas;

-O Brasil não precisa de usinas nucleares para atender as suas necessidades de energia elétrica, pois a produção atual energética já atende às demandas existentes;

-Existem outras alternativas que são realmente limpas e seguras para produzir energia elétrica, sem correr os riscos que oferecem as usinas nucleares, e em particular, o Nordeste brasileiro é abundante em fontes de energia como o Sol e o vento;

-A decisão de construir usinas nucleares no Brasil foi antidemocrática. A população em geral e os vizinhos dos reatores em particular, não tiveram oportunidade de se manifestar.

-A energia elétrica de matriz nuclear é a mais cara do que a gerada pelas matrizes eólica e solar, sendo injustificável o investimento nela também do ponto de vista econômico. Além de nos projetos não incluírem os possíveis custos inestimáveis em casos de desastres, acidentes ou simples negligência ou imperícia.

-A construção de uma usina nuclear, de altíssimo custo, não é investimento necessário para a região, que sofre com a seca e a falta de políticas públicas que atendam aos povos tradicionais, campesinos e suas necessidades produtivas, como agricultura, caprinocultura, psicultura. Ainda, a construção de uma usina na localidade não vai contribuir com a geração de empregos.

-No mundo a fora, a energia nuclear não é mais vista como a energia do futuro ou limpa, tanto que países como a Alemanha já iniciou processo de desligamento de suas usinas para não ter mais essa fonte de energia funcionando em seu país até 2022.

-Já houve o reconhecimento pelo Estado de Pernambuco do potencial lesivo da geração de energia nuclear quando da promulgação de sua Constituição Estadual, que através de seu artigo 216, proíbe a utilização dessa matriz. A sua modificação configuraria um completo retrocesso e desrespeito à toda a população do estado.

Portanto, em razão de nosso comprometimento com a vida das pessoas e do meio ambiente, com a defesa do direito à terra e ao território, ao trabalho digno e à saúde, e tendo a certeza que o Nordeste não necessita da instalação de uma usina nuclear; sabendo também da quantidade de prejuízos imediatos e a médio prazo que um empreendimento desses pode causar; acreditando que o vultoso montante a ser investido deveria ser realocado para garantir políticas públicas necessárias para a população, nós, movimentos sociais, comunidades tradicionais, sindicatos, associações, intelectuais, pastorais e organismos ligados à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, nos declaramos contra qualquer possibilidade de instalação de uma Usina Nuclear ou qualquer projeto de mineração que envolva extração/beneficiamento de combustível nuclear.

Assim, por entender que não precisamos da energia nuclear, suja, perigosa e cara, que é indefensável sob qualquer ponto de vista – social, ambiental, político, econômico e cultural, exigimos do governo do estado de Pernambuco um pronunciamento oficial contrário a possível construção de uma usina nuclear e uma audiência pública para melhor debater o tema.

Recife, 28 de maio de 2019.

Assinam essa carta:

- ABA - Associação Brasileira de Antropologia
- Associação de Mulheres Artesãs Pankará
- Associação Nacional dos Trabalhadores da Produção de Energia Nuclear - ANTPEN
- Associação pela Recuperação e Conservação do Ambiente, Arca - Goiás
- Associação de Advogados/as de Trabalhadores/as Rurais no Estado da Bahia - AATR
- ADAGRO
- AMAP Associação de mulheres artesãs Pankará
- ANAI - Associação Nacional de Ação Indigenista
- APOINME - Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e
Espírito Santo
- Articulação Antinuclear Brasileira
- Articulação dos Pescadores do Sertão
- ASA – CAATINGA
- Associação Comunitária Remanescente de Quilombo Negros de Gilú- Itacuruba
- Associação Hibakusha Brasil Pela Paz
- Associação PROVIDA
- Casa da Mulher do NE
- Cátedra Dom Helder Câmara de Direito Humanos - UNICAP
- Centro Cultural Direito de Ser de Itacuruba – PE
- CMDR SERRITA
- Coletivo Graúna de Justiça de Transição
- Coletivo Margarida Alves de Assessoria Popular
- Comissão Estadual dos Quilombolas de Pernambuco
- Comissão Pastoral da Terra (CPT)
- Comitê Povos Tradicionais, Meio Ambiente e Grandes Projetos da ABA - Associação Brasileira
de Antropologia
- Comunidade Indígena Pankará Serra do Arapuá
- Comunidade Indígena Tuxá Campos
- Comunidade Quilombola Negros de Gilú
- Comunidade Quilombola Poço dos Cavalos
- Comunidade Quilombola Araçá
- Comunidade Quilombola Balanço
- Comunidade Quilombola Cajueiro
- Comunidade Quilombola de Ingazeira
- Comunidade Quilombola Feijão em posse
- Comunidade Quilombola Jardim
- Comunidade Quilombola Juazeiro Grande
- Comunidade Quilombola Pau de Leite
- Comunidade Quilombola Pau de Leite
- Comunidade Quilombola Pedra Branca
- Comunidade Quilombola Pedra de Amolar
- Comunidade Quilombola Queimada
- Comunidade Quilombola Quixabeira Helena
- Comunidade Quilombola Serra do Talhado
- Comunidade Quilombola Tupanaci
- Comunidade Quilombola Várzea do Tiro
- CMDR - Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural - BELMONTE
- CMDR - Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural - CEDRO
- CMDR - Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural - MIRANDIBA
- CMDR - Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural - SALGUEIRO
- CMDR - Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural - TERRA NOVA
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- CMDR - Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural - VERDEJANTE
- COJIPE- Comissão de Juventude Indígena de Pernambuco
- Coordenação Nacional de Articulação das comunidades quilombolas- CONAQ
- Conselho Indigenista Missionário (CIMI)
- Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP)
- Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas- CEAQ
- Diocese de Floresta
- Diretório Acadêmico Demócrito de Souza Filho – DADSF/UFPE – Gestão Rebuliço
- Federação dos Quilombolas
- Federação dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras familiares do Estado de
Pernambuco FETAPE
- Fernanda Giannasi – Engenheira e Auditora, Fical do Trabalho aposentada
- Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social
- Fórum SUAPE Socioambiental
- Frente de Luta pelo Transporte Público de Pernambuco
- Fundação Leonel Brizola – PE
- Geografar/ UFBA.
- GESTA/UFMG - Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais
- Greenpeace Brasil
- Grupo de Estudos com Povos Indígenas/Unilab
- Grupo de Pesquisas sobre Identidades Coletivas, Conhecimentos Tradicionais e Processos de
Territorialização da UFPI
- Grupo de Pesquisas Memórias, processos identitários e territorialidades no recôncavo da
Bahia, MITO/UFRB
- Grupo REC - Recife Estudos Constitucionais CNPq/UNICAP
- Igreja Batista de Mirandiba
- Igreja Batista Missionária de Mirandiba
- IPA – Instituto Agronômico de Pernambuco
- IRPAA – Instituto Regional de Pequena Agropecuária Apropriada
- Jackson do povo Atikum de Itacuruba
- Laboratório de Antropologia, Política e Comunicação LAPA/UFPB
- Laboratório de Estudos sobre Ação Coletiva e Cultura – LACC/UPE
- Laboratório de Estudos sobre Espaço, Cultura e Política - LECgeo/UFPE
- Laboratório do Projeto Nova Cartografia Social da UFPI
- LACC - LABORATÓRIO DE ESTUDOS SOBRE AÇÃO COLETIVA e CULTURA
- Laced/Laboratorio de Pesquisas em Etnicidade, Cultura e Desenvolvimento, do Museu
Nacional/UFRJ
- LICEEI - Licenciatura Intercultural em Educação Escolar Indígena/ UNEB
- Movimento Paulo Jackson - Ética, Justiça e Cidadania
- MIRE – Mística e Revolução
- Movimento Pela Soberania Popular na Mineração/ MG
- Movimento da Juventude Indígena Pankararu - MOJIP
- Movimento Ecossocialista de Pernambuco - MESPE
- NARP - Nascentes do Rio Pardo e seus Afluentes
- Núcleo de Assessoria Jurídica Popular – NAJUP
- Núcleo de Estudos em Agroecologia e Nova Cartografia Social/UFRB
- Núcleo Interdisciplinar de Investigação Socioambiental da Unimontes/MG
- OJIKA - Organização de Jovens Indígenas Kapinawá
- OJIPA - Organização de Juventude Indígenas de Pankará;
- OJIT- Organização de Jovens indígenas Truká
- Ororubá Filmes;
- Pastorais Sociais de Floresta
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- Pastoral Social do Regional NE2
- Povo Indígena Pankará de Serrote dos Campos
- Povo Indígena Pankará da Serra do Arapuá
- Povo Indígena Tuxá Pajeú - Itacuruba-PE
- Povo Indígena Xukuru do Ororubá
- Poyá Limolaygo - Coletivo de Jovens do Povo Xukuru;
- Prefeitura Municipal de Mirandiba
- Programa de Pesquisas sobre Povos Indígenas do Nordeste brasileiro, Pineb/UFBA.
- Prorural
- Província Eclesiástica de Pernambuco
- Rede de Mulheres do NE
- Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares em Pernambuco- RENAP
- Rede de Monitoramento de Direitos Indígenas de Pernambuco - REMDIPE
- Renato Athias, Coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Etnicidade (NEPE/UFPE)
- Sindicato Rural de Mirandiba
- SINTRAF
- Sociedade Angrense de Proteção Ecológica - SAPE
- Organização Indígena Tronco Velho Pankararu;
- Rede de Juventude Indígena (REJUIND);
- Voz das Mulheres Indígenas

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Seminário - DESMONTE DA PREVIDÊNCIA NO BRASIL: A QUEM INTERESSA?


Não à destruição da Previdência Social!

Nós, membros da Rede Jubileu Sul, lideranças de movimentos e pastorais sociais, organizações, coletivos e entidades de mais de 15 estados e cinco países da América Latina, reunidos durante o Seminário “Desmonte da Previdência Social no Brasil: a quem interessa?”, de 27 a 29 de maio, em Brasília (DF), manifestamos nossa preocupação diante da devastação que acometerá à sociedade brasileira caso a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 06/2019, apresentada pelo governo federal, seja aprovada.

A DESCONSTITUCIONALIZAÇÃO da matéria previdenciária prevista pela PEC expõe o desejo desse governo, despreparado, a serviço e manipulado pelo mercado financeiro, de fazer do Brasil um experimento neoliberal, que poderá devastar a vida de homens e mulheres, especialmente a vida dos mais pobres das periferias e do campo. A vida das mulheres, em especial das mulheres negras, que estão na base da informalidade ou do mercado de trabalho, são as que mais sofrerão com essas mudanças que exigirão maior tempo de contribuição sem considerar os cuidados domésticos e maternos que são imprescindíveis na sociedade. As trabalhadoras e trabalhadores rurais, indígenas, extrativistas, pescadores, quilombolas e outras comunidades tradicionais serão, caso seja aprovado esse desmonte, explorados em sua dignidade e identidade cultural.

A aplicação do sistema de capitalização, além de liquidar o princípio de solidariedade, base da seguridade social brasileira, ampliará a exploração da trabalhadora e do trabalhador que colocará nas mãos dos bancos e instituições financeiras o pouco daquilo que conseguir poupar ao longo de sua vida laboral, se conseguir, tendo em vista o alto grau de informalidade presente no país. O trabalhador e a trabalhadora, terá, ainda, de conviver com os riscos inerentes ao sistema financeiro.

A experiência de capitalização no Chile desnuda resultados de empobrecimento e adoecimento emocional de sua população mais pobre e devem nos servir de alerta. Considerando os dados oficiais do Chile, metade daqueles que se aposentaram no atual sistema de capitalização individual, não conseguiram financiar uma pensão superior a 20% de sua última renda.

Estamos convictas e convictos de que essa contrarreforma impactará, negativamente, na economia da grande maioria dos municípios brasileiros que são dinamizados pela aposentadoria e pelos Benefícios de Prestação Continuada (BPC). Alertamos também que tais consequências em nossos municípios serão lembradas em momento eleitoral e estaremos atentos e atentas ao seu apoio à nossa luta ou à conivência criminosa diante desta proposta que deixará marcas irreparáveis à sociedade brasileira do presente e das futuras gerações.

Por isto conclamamos que todas/os parlamentares se posicionem votando NÃO à PEC 06/2019.

Brasília, 29 de maio de 2019

Associação de Favelas de São José dos Campos
Cáritas Brasileira
Coletivo de Educação Popular Margarida Alves
Comissão Pastoral da Terra
Conselho Nacional do Laicato
Conselho Pastoral dos Pescadores
Fórum de Mudanças Climáticas e Justiça Social
Frente Social Ambiental Ampla
Grito dos Excluídos Continental
Grito dos Excluídos Nacional
Instituto PACS
Instituto Panamericano de Meio ambiente e Sustentabilidade (IPAN)
MMC
Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Campo – MTC
Pastorais Sociais/CNBB
Pastoral Operária Nacional
Rede feminista de Saúde, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos / MG
Rede Jubileu Sul Américas
Rede Jubileu Sul Brasil
Serviço Pastoral DoS Migrante
s Sinasefe – CE; ES; MG; PA;
Sindicato dos metroviários do RS
Sindicato dos trabalhadores da Seguridade Social em Alagoas
Sitraemg
SMPTDF

Texto na integra: jubileusul.org.br

CPP 50 anos: Celebrar a Resistência e Profetizar a Esperança!


Carta do Congresso de 50 anos do Conselho Pastoral dos Pescadores
“Avancem para águas mais profundas e lancem as redes para a pesca.” (Lc. 5,4)
Na beira do Rio Guamá, em Belém do Pará, entre os dias 21 e 23 de maio de 2019, realizamos o Congresso de 50 Anos do CPP: Celebrar a Resistencia e Profetizar a Esperança. Na Baía da Esperança, Agentes de Pastoral do CPP, Pescadoras e Pescadores Artesanais, Pastorais Sociais do Campo e organizações parceiras nacionais e internacionais renovaram o compromisso profético com o projeto do Cristo Libertador e com as lutas dos pescadores e pescadoras. Fizemos memória de nossa história, lançamos um olhar crítico sobre nossa realidade e apontamos caminhos para testemunhar nossa fidelidade ao Deus da vida e seu projeto de justiça.
Nossa história é atravessada pelos processos de colonização, pautados na máxima exploração da natureza e da vida humana, sobretudo dos povos originários e do povo negro. Nesse momento, navegamos em águas ainda mais turbulentas, onde o desmonte de todas as políticas ligadas às áreas mais essenciais à vida da população, aprofunda o processo de exploração, perseguição, criminalização e morte.
Desde 2016, com o golpe político-jurídico-midiático, em especial com as eleições de 2018, vivenciamos um crescimento de discursos e práticas ultraliberais, de ameaça à democracia e aos direitos humanos. Os direitos socais, culturais e ambientais conquistados com a Constituição de 1988 têm sofrido cada vez mais ataques, levando a sua desestruturação, com o desmonte dos direitos trabalhistas, os cortes de recursos para Educação, as Medidas Provisórias 870 e 871 de 2019 e a Reforma da Previdência, que retira direitos dos pescadores e pescadoras e entrega a aposentadoria do povo brasileiro nas mãos do capital financeiro.
A estagnação e o desmonte das políticas ambientais e de regularização dos territórios põe em risco os bens comuns, aumenta a violência contra as lideranças e as comunidades em conflito com grandes empreendimentos do agro e hidro negócio. O pensamento conservador ganha força, disseminando ódio e a violência contra mulheres, LGBTQI+, negros, indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. Sem propor projetos para enfrentamento das desigualdades estruturais, o governo libera porte de armas, num cenário de grilagens e intensos conflitos fundiários, estimulando mais violência e assassinatos de quem luta pelo direito à terra e ao território no campo, nas florestas e nas águas. Todas essas medidas aprofundam a exploração dos trabalhadores e trabalhadoras, as desigualdades de gênero e geram extermínio da diversidade e dos povos e comunidades tradicionais do nosso país. A Casa Comum está sob ameaça pela ganância dos ricos. Seus grandes projetos provocam a morte das nossas matas, dos nossos rios e dos povos das águas, transformando esses territórios em zonas de sacrifícios em nome do lucro.
Esse contexto nos provoca profunda indignação. Somos frutos da Igreja popular, da tradição comunitária, da renovação da Igreja no Concílio Vaticano II, com o rosto latino americanizado nas conferências de Medellín, Puebla e tantas outras. Na vivência das Comunidades Eclesiais de Base foi possível crescer no serviço aos pobres, na espiritualidade libertadora e na consciência revolucionária, alimentados pela força transformadora do evangelho de Jesus. A tradição cristã das primeiras comunidades nos move para abolir a divisão e acolher a diversidade dos modos de ser, fazer e acreditar. Fazemos memória da tradição macro ecumênica de nossa história e assumimos a responsabilidade de seguir nesse caminho.
Aprendemos com Frei Alfredo, que é no ato da escuta e da vivência com os pescadores e pescadoras que o projeto evangélico de Jesus vai ganhando vida. Reconhecemos a presença do Cristo na lida dos homens e mulheres das águas. Assumimos a tarefa profética de Celebrar a Memória das lutas e Profetizar a esperança na vida, cultivando a mística da presença no MEIO do povo. Acreditamos que a sabedoria ancestral possibilita encontrar novos caminhos para a terra sem males. É missão do CPP contribuir na escrita coletiva da liberdade, sendo a educação popular parte da nossa pedagogia e do nosso fazer cotidiano. Os saberes, a cultura e a cosmovisão dos povos e comunidades tradicionais apontam caminhos para processos coletivos de descolonização e de retomada dos diversos conhecimentos produzidos no chão das comunidades. O nosso modo de ser e fazer pastoral passa pela conversa e a escuta atenta nas praias, barrancos, açudes, lagoas e barragens, enquanto geografias que desafiam os projetos de morte. Nossa fé se renova no trabalho de base, nas celebrações e canções de liberdade.
Renovamos o nosso compromisso para enfrentar a colonialidade do poder, saber e ser; de construir uma ação pastoral que garanta a equidade de gênero e respeite a diversidade afetiva; combater as diversas violações de direitos humanos e socioambientais e a defesa do território tradicional; perceber o rosto jovem que pulsa em nossos territórios na defesa das comunidades pesqueiras; aprimorar os processos de autogestão dos territórios junto com as comunidades, articulando as lutas urbanas numa aliança campo e cidade; fortalecer a economia solidária na construção do Bem Viver para a garantia dos meios de vida;  ampliar o serviço pastoral nesta imensa socio biodiversidade de águas e povos tradicionais da Amazônia e estar abertos para os gritos dos povos nos outros biomas; refletir junto aos movimentos de pescadores e pescadoras sobre os valores da luta coletiva, de organização a partir da base, de direção coletiva e renovação de lideranças.
O sínodo da Amazônia, que se aproxima, nos chama para a renovação do compromisso cristão. Num contexto da globalização é preciso agir em escala local, regional, nacional e internacional, dando visibilidade às violações e lutas. Nestes tempos de morte, onde os direitos dos povos estão sendo mercantilizados e retirados, não podemos nos omitir ou recuar. Iluminados pela força do evangelho de Jesus, somos chamados a avançar, encontrar o sentido mais profundo de nossa utopia, não temer, ir para águas mais profundas e lançar as redes para a pesca.
Belém, 23 de maio de 2019